Sheri Dew: ‘Não estamos sós’

Na reunião geral das mulheres de outubro de 1983, a clássica música de Michael McLean, “Não Estás Só” foi ouvida pela primeira vez por um público mundial, e a resposta foi instantânea. Na segunda-feira seguinte, o telefone da Deseret Book tocou sem parar com mulheres implorando por uma cópia.

A melodia foi memorável, mas foi a letra que despertou o frenesi: “Não estás só, mesmo que assim pareça, não estás só, pois eu te amo e ao teu lado sempre estou, te ajudarei, não estás só”.

Quem não se identifica com isso? Todos sentem solidão. Ironicamente, embora estejamos mais conectados do que nunca por meio da tecnologia, estudos atuais sugerem que podemos ser os mais solitários de todos os povos. The American Psychological Association [Associação Americana de Psicologia] divulgou recentemente que “os níveis de solidão atingiram os maiores índices de todos os tempos, com quase metade dos … adultos dos EUA relatando que às vezes, ou sempre, se sentem sozinhos”. Em outra pesquisa, 70% dos jovens adultos relataram que às vezes, ou sempre, se sentem sozinhos.

A solidão é, na verdade, uma questão de vida ou morte. Os cronicamente solitários têm 26% mais chances de morrer, o que equivale a alguém que fuma 15 cigarros por dia.

E isso foi antes da COVID-19 nos atingir e introduzir uma nova onda de isolamento. No passado, talvez não tenhamos percebido como sorrisos, abraços, apertos de mão e momentos com amigos são importantes para suster a vida.

Julianne Holt-Lunstad, professora da BYU, diz que “nosso corpo e nosso cérebro esperam a proximidade dos outros. Quando não temos essa proximidade, quando sentimos que temos que enfrentar a vida por conta própria, tudo se torna muito mais difícil.”

Certamente uma coisa que aprendemos este ano é que precisamos uns dos outros.

Mas há um tipo adicional de solidão central à condição humana que todos nós experimentamos. A mortalidade é um deserto espiritual onde estamos separados de nossos Pais Celestiais e da casa celestial onde nossos espíritos sentem a maior paz. Eliza R. Snow descreveu esta separação quando escreveu: “Às vezes ouço em segredo: ‘Um estranho és aqui.’ Bem sei que sou um peregrino de outra esfera em que vivi.”

A dor da separação dos outros é excedida apenas pelo assombroso vácuo criado quando nos separamos de Deus.

Quando, na época, Élder Gordon B. Hinckley iniciou o trabalho missionário nas Filipinas em 1961, ele o fez realizando uma comovente reunião ao nascer do sol no belo Cemitério Militar Americano, nos arredores de Manila. Na ocasião, havia apenas um membro filipino conhecido da Igreja.

Logo depois, Élder Hinckley retornou a Manila com quatro missionários que ele havia transferido de Hong Kong. A irmã Marjorie Hinckley acompanhou seu marido e, enquanto se preparavam para deixar os jovens naquela movimentada área metropolitana, onde ainda não havia uma infraestrutura da Igreja para os apoiar, seus instintos maternos tomaram conta. “Como você pode deixar esses meninos aqui sozinhos?”, ela pressionou o marido. Élder Hinckley respondeu simplesmente: “Eles não estão sozinhos. O Senhor estará com eles.” E com isso, o casal entrou em um avião e foi embora.

Sua declaração provou ser profética. Eu estava em Manila 35 anos depois quando, no dia 29 de maio de 1996, Presidente Hinckley retornou às Filipinas, que então possuía quase 400.000 membros.

No dia em que ele iria falar à noite em um devocional em Manila, pelo meio da tarde, o Coliseu de Araneta já estava cheio, além de sua capacidade. Cerca de 35.000 membros superlotaram os 25.000 lugares. Nos corredores e saguões havia pessoas de parede a parede.

Quando o Presidente Hinckley entrou no coliseu, a congregação ficou de pé e começou a aplaudir conforme cantavam três estrofes emocionantes de “Graças Damos, Ó Deus, por um Profeta”. Aquele grande salão estava cheio de energia espiritual. Naquele momento, não pude deixar de pensar nos primeiros quatro élderes que, como prometido, nunca estiveram sozinhos.

A verdade inserida na canção de Michael McLean e a promessa do Presidente Hinckley podem ancorar cada um de nós, se assim permitirmos. Conforme terremotos, incêndios, furacões, agitação civil, tempestades políticas e até mesmo uma pandemia se desencadeiam, a majestade do evangelho de Jesus Cristo contém os antídotos mais duradouros para a solidão.

Élder Jeffrey R. Holland, do Quórum dos Doze Apóstolos, disse: “Por ter Jesus trilhado esse caminho tão longo e solitário completamente sozinho, nós não temos de fazer isso. Sua jornada solitária proporcionou-nos uma grande companhia para nossa curta versão da trilha: o misericordioso carinho de nosso Pai Celestial, a fiel companhia de Seu Amado Filho, o consumado dom do Espírito Santo, anjos do céu, familiares nos dois lados do véu, [e] profetas e apóstolos. … Proclamada do cume do Calvário, soa a verdade que afirma que nunca estaremos sós ou desassistidos, mesmo que às vezes nos sintamos assim.”

Jesus Cristo expiou por todos os membros da família humana. E por ter feito isto, jamais estamos verdadeiramente sozinhos.

— Sheri Dew é vice-presidente executiva da Deseret Management Corporation e CEO da Deseret Book Company. Ela serviu na presidência Geral da Sociedade de Socorro de 1997 a 2002.