Jovens santos dos últimos dias e o suicídio: O que saber e como ajudar

Uma narrativa popular sobre o suicídio de jovens em Utah — que A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ou sua cultura, está gerando taxas mais elevadas — não se baseia em dados, explicou o cientista social Michael A. Goodman a uma audiência da Semana de Educação da BYU.

No entanto, embora estatisticamente a religião apresente menor risco de suicídio, Goodman disse a seus ouvintes: “Temos muito trabalho a fazer. Qualquer suicídio é demais.”

Goodman, professor associado da BYU, é doutor em Casamento e Família. Ele e alguns de seus colegas na BYU — Sam A. Hardy, W. Justin Dyer e Mark D. Ogletree — são pesquisadores de um estudo intitulado Family Foundations of Youth Development [Fundamentos da Família para o Desenvolvimento de Jovens], para o qual coletam informações de mais de 2 mil adolescentes e seus pais por mais de 10 anos.

“Cristo cura um enfermo em Betesda” por Carl Heinrich Bloch (1834-1890).
“Cristo cura um enfermo em Betesda” por Carl Heinrich Bloch (1834-1890). Credit: Museu de Arte da BYU

Cada pesquisador apresentou uma palestra na Semana de Educação, realizada de 17 a 20 de agosto de 2021, para uma aula intitulada “Jovens de nobre estirpe: o que os dados das ciências sociais nos dizem sobre os jovens santos dos últimos dias”. Em sua palestra, Goodman apresentou os dados sobre os jovens santos dos últimos dias e o suicídio, e discutiu o que é real, o que é falso e como indivíduos, grupos e outras pessoas podem ajudar.

A narrativa que tem circulado nos últimos anos entre as mídias locais, nacionais e sociais sugere que ser um jovem santo dos últimos dias — ou especificamente um jovem santo dos últimos dias LGBTQ — é uma receita para o comportamento suicida: ter pensamentos e sentimentos relacionados ao suicido ou o desejo de se suicidar.

Goodman disse acreditar que as pessoas que compartilham a narrativa são, na maioria das vezes, bem-intencionadas. “Elas estão tentando ajudar”, disse Goodman. No entanto, a própria narrativa, seja verdadeira ou não, pode possivelmente aumentar o risco de comportamento suicida.

“Se dissermos a alguém que está sofrendo: ‘Seu povo o odeia. Você deveria estar envergonhado. Eles acham que você é horrível. Eles acham que você é irremediável. Você não tem futuro com eles. Sua família vai abandoná-lo’, se compartilharmos essas frases com alguém que está sofrendo, podemos imaginar por que essa pessoa terá mais dificuldades?” perguntou Goodman.

“Precisamos eliminar a falsa narrativa, não porque queremos defender a Igreja, o estado de Utah, ou qualquer outra instituição, mas porque tais narrativas aumentam o risco do comportamento suicida”

O objetivo não é usar a estatística como uma arma, explicou Goodman, mas ao mostrar a realidade de forma agregada. Goodman e seus colegas que têm pesquisado os dados visando oferecer esperança individualizada.

Experiências vividas

Ajuda para a vida.
Ajuda para a vida. Credit: A igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

Goodman começou seus comentários compartilhando as experiências de quatro jovens santos dos últimos dias que se identificam como LGBTQ.

“Suzie” é uma lésbica que deseja viver de acordo com o evangelho restaurado; sofre de depressão e ansiedade e tem tendências suicidas; mas não culpa a Igreja por sua dor. “Sam” é gay; deseja viver de acordo com sua orientação sexual; sofre de depressão e ansiedade e tem tendências suicidas; e culpa a Igreja por sua dor. “Janie” é transgênero; planeja permanecer conectado ao convênio com a Igreja; mas sofre de depressão e ansiedade e tem tendências suicidas. “Jim” é bissexual e deseja viver de acordo com sua orientação sexual e com o evangelho restaurado; não sofre de depressão, ansiedade ou tem tendências suicidas e deseja permanecer conectado ao convênio, mas não sabe como fará isso.

Por trás das estatísticas se encontram indivíduos cujas experiências são distintas, autênticas e merecem ser ouvidas e compreendidas, disse Goodman.

Embora as estatísticas ajudem Goodman e seus colegas a traçarem um quadro geral, “isso não significa que uma pessoa não tenha uma situação difícil com a Igreja”, explicou Goodman.

Não descartem a experiência vivida por outra pessoa, disse Goodman, mas também não usem essa experiência e finjam que ela corresponde à realidade para a maioria das pessoas.

Ao mesmo tempo que mostrava estatísticas e médias, Goodman alertou seus ouvintes: “Não ignorem as pessoas. Os dados devem nos ajudar a aprendermos como podemos servir e ajudar pessoas reais da melhor maneira possível.”

Quais são os dados?

Utah tem, de fato, uma taxa de suicídio de adolescentes mais alta do que a média nacional. As estatísticas são preocupantes, disse Goodman. O suicídio é a segunda principal causa de morte para jovens entre 10 e 17 anos no estado, e Utah tem a quinta maior taxa do país. Aproximadamente 40% das mortes por suicídio em Utah foram identificadas com envolvimento — por parte das pessoas ou um de seus pais — com a Igreja.

“Devemos considerar isso e, não importa quais sejam as causas, dizer que temos que melhorar nossas práticas atuais”, disse Goodman.

Muitos observam as altas taxas de suicídio de Utah e as relacionam com a grande população de santos dos últimos dias do estado. Poucos, entretanto, realmente contextualizam as informações, disse Goodman.

Com exceção de um ou dois estados, como o Alasca, todos os outros com as maiores taxas de suicídio estão dentro da mesma área geográfica, a qual os pesquisadores chamam de “corredor do suicídio”. Utah está “bem no meio do corredor do suicídio”, explicou Goodman, onde as taxas de suicídio são quase o dobro da média nacional.

Goodman e seus colegas examinaram atentamente o que se correlaciona, ou se relaciona, com um maior ou menor número de comportamento suicida. “Essa informação é essencialmente importante porque pode nos ajudar, à medida que tentamos descobrir como ajudar.”

Participantes vão para outras classes durante a Semana de Educação da BYU em Provo na terça-feira, 17 de agosto de 2021.
Participantes vão para outras classes durante a Semana de Educação da BYU em Provo na terça-feira, 17 de agosto de 2021. Credit: Wendy Wilson

Os estados dentro do corredor de suicídio compartilham muitas características associadas a altas taxas de suicídio, incluindo raça (brancos e nativo-americanos têm maior risco, enquanto minorias como hispânicos ou negros apresentam menor risco), áreas rurais, altitude elevada e maior acesso a armas.

Outros fatores que se correlacionam, ou coincidem, com taxas de suicídio mais altas incluem renda mais baixa, nível de educação inferior, saúde mental precária, famílias monoparentais e status de minoria sexual.

A religião, no entanto, apresentou menos risco de suicídio. De forma consistente, a pesquisa mostra que, em geral, a religião, e a Igreja especificamente, protegem contra o comportamento suicida, disse ele.

“Para repetir, isso não significa que as pessoas não tenham uma situação difícil com a Igreja ou que ela contribua para suas experiências”, disse Goodman.

Goodman e os outros pesquisadores coletaram informações de sete conjuntos de dados dos Centros de Controle de Doenças dos Estados Unidos, do Departamento do Censo dos Estados Unidos, do Censo Religioso dos Estados Unidos, do Centro de Dados Geoespaciais da BYU, entre outros, e analisaram 1.500 condados em todo o país para estudar o comportamento suicida. “Aprendemos muito rapidamente que tínhamos que separar os estados do corredor do suicídio dos demais porque seus habitantes não se comportavam da mesma forma.” 

Utilizando dados da Igreja, eles analisaram quantas congregações santos dos últimos dias havia em um determinado condado e compararam essa informação com as taxas de suicídio.

“A área com a presença mais forte da Igreja tem, sem dúvida, taxas de suicídio mais baixas”.

Em Utah, o número de jovens de 10 a 17 anos que tiveram tendências suicidas ou tentaram se suicidar ficou abaixo de 50% para os santos dos últimos dias.

Após examinar os dados, Goodman e seus colegas se perguntaram se isso também era válido para grupos minoritários, como aqueles que se identificam como LGBTQ.

A religião e o comportamento suicida de adolescentes LGBTQ é uma história complicada, disse Goodman. Algumas pessoas LGBTQ obtêm grandes benefícios da religião, tais como maior senso de identidade, aceitação de outras pessoas, incorporação de valores religiosos e maior apoio social. Outras, no entanto, experienciam sentimentos de inadequação, culpa religiosa, sintomas depressivos e tensão social.

Do estudo longitudinal Family Foundations of Youth Development [Fundamentos da Família para o Desenvolvimento de Jovens] conduzido por Goodman e seus colegas da BYU, eles descobriram que adolescentes LGBTQ têm risco de suicídio muito mais elevado do que jovens heterossexuais: quando 15% dos jovens heterossexuais experienciaram comportamento suicida, 43% dos adolescentes LGBTQ passaram pela mesma experiência.

Eles analisaram dados referentes aos LGBQ (não há dados suficientes sobre transgêneros para fazer inferência estatística) e descobriram que 44% dos santos dos últimos dias LGBTQ experienciaram comportamento suicida em comparação com 47% de outras religiões e 77% de nenhuma religião (indivíduos que afirmam não ter denominação religiosa, ateus e agnósticos).

“Se isso não faz com que queiramos ajudar, não sei o que fará”, disse Goodman.

Alguns dos candidatos mais fortes à tendência suicida entre os LGBQ foram aqueles que tiveram tais sentimentos anteriormente, se sentiram abandonados por Deus, experienciaram a hostilidade verbal de um dos pais e depressão.

Quando um indivíduo LGBQ se sentia amado ou apoiado pelos membros de sua igreja, “isso lhe oferecia proteção”, disse Goodman.

Em geral, indivíduos LGBQ que achavam que a religião era importante para eles tinham 50% menos chance de terem sentimentos suicidas.

O que oferece mais proteção contra o suicídio? Sentimentos de proximidade e relacionamentos fortes com outras pessoas.

Os santos dos últimos dias LGBTQ têm taxas de suicídio mais baixas do que a população em geral e do que a maioria das outras populações religiosas. Um possível motivo para isso é o forte apoio familiar e social, que são essenciais, disse Goodman. “O fato é que os santos dos últimos dias LGBTQ têm as maiores taxas de apoio da família.”

Goodman disse que reconhece que os fatos contradizem a narrativa e as experiências de alguns indivíduos, “mas, de maneira geral, conforme analisamos e obtemos bons dados, indivíduos que fazem parte da minoria sexual encontrarão maior apoio familiar nas famílias santos dos últimos dias. E em Utah — porque só podemos falar sobre Utah a respeito desse assunto — esses indivíduos também terão taxas de bullying mais baixas.”

Participantes da Semana de Educação da BYU saem para comer algo entre os intervalos das aulas, durante a conferência anual realizada no campus da BYU em Provo, Utah, na terça-feira, dia 17 de agosto de 2021.
Participantes da Semana de Educação da BYU saem para comer algo entre os intervalos das aulas, durante a conferência anual realizada no campus da BYU em Provo, Utah, na terça-feira, dia 17 de agosto de 2021. Credit: Scott G Winterton, Deseret News

Portanto, e agora?

Goodman apresentou a seus ouvintes uma teoria interpessoal a respeito do suicídio. É uma teoria acadêmica, explicou Goodman, que está “muito bem fundamentada” em suas descobertas.

Existem alguns indivíduos que sentem “uma inclusão frustrada” ou que não pertencem e estão isolados. Existem aqueles que sentem que são um fardo ou acreditam que “só causam problemas”. Para aqueles que experienciam estes dois tipos de sentimentos — que não pertencem e que são um fardo — isso cria o que chamamos de comportamento suicida, ou pensamentos, sentimentos e desejo de cometer suicídio, disse Goodman. Se ambos os sentimentos forem combinados com a capacidade, ou seja, o acesso a uma arma, opiáceos, etc., “tentativas letais de suicídio podem ocorrer”, explicou Goodman.

Como pessoas que se esforçam para amar o Pai Celestial, o Salvador e seu próximo, os membros da Igreja “devem trabalhar para ajudar as pessoas a se sentirem incluídas e importantes”, disse Goodman. “Isso não significa que temos que concordar com todos. Isso não significa que todos tenham que concordar conosco. Podemos ser cristãos o suficiente para amarmos uns aos outros, mesmo se discordarmos uns dos outros? Devemos trabalhar para fazer com que cada pessoa compreenda [seu] valor.”

Aqueles que desejam ajudar podem, ou não, ser capazes de ter algum controle sobre a situação de um indivíduo que esteja passando por dificuldades, mas todos temos a capacidade de ajudar outras pessoas a se sentirem amadas e importantes, disse Goodman.

“Within Our Grasp” [Ao nosso alcance], do artista Jay Bryant Ward
“Within Our Grasp” [Ao nosso alcance], do artista Jay Bryant Ward Credit: Culley Davis

Como podemos ajudar

“É importante identificarmos os sinais de risco para pessoas que estão tendo dificuldades”, disse Goodman, listando vários deles:

  • Busca por maneiras de cometer suicídio.
  • Conversas sobre se sentir sem esperança ou sem razão para viver.
  • Conversas sobre se sentir preso ou sobre uma dor insuportável.
  • Conversas sobre ser um fardo para outras pessoas.
  • Aumento do consumo de álcool ou drogas.
  • Doações de itens pessoais sem motivo.
  • Comportamento ansioso, agitado ou imprudente.
  • Afastamento ou isolamento.
  • Demonstração de raiva ou conversas sobre vingança.
  • Alterações bruscas de humor.

“Esses são os possíveis [sinais de alerta] que deveriam disparar em nossa mente”, disse Goodman.

Aqueles que reconhecem os sinais podem ajudar indivíduos com dificuldades ao fazerem três coisas: Perguntar, se importar e dizer.

“Nosso trabalho não é proporcionar aconselhamento profissional para pessoas que estão passando por dificuldades”, disse Goodman, “mas cada um de nós pode fazer essas coisas.”

Primeiro, se observarem que uma pessoa está passando por dificuldades, perguntem a ela como está e reconheçam sua experiência ou sentimentos.

Em segundo lugar, “mostrem a ela que vocês se importam.”

E terceiro, especialmente em casos em que a pessoa que está tendo dificuldades demonstra risco ou desespero crescente, digam algo. “Não permaneçam em silêncio”, disse Goodman. “Se a pessoa permitir que vocês a ajudem, ótimo. Encaminhem-na a alguém que possa ajudá-la. E se ela não permitir, ajudem mesmo assim. Deixem que ela fique zangada com vocês.”

Goodman então forneceu uma lista de recursos disponíveis [em português]:

Em conclusão, Goodman disse: “Não se esqueçam de que o Pai Celestial vive e é a maior fonte de ajuda que podemos proporcionar a nós mesmos e a outras pessoas.”

A estátua Christus é iluminada no Centro de Visitantes do Templo de Roma Itália com um reflexo do templo, na sexta-feira, 8 de março de 2019.
A estátua Christus é iluminada no Centro de Visitantes do Templo de Roma Itália com um reflexo do templo, na sexta-feira, 8 de março de 2019. Credit: Jeffrey D. Allred, Deseret News