COVID-19 na América Latina: Como os santos estão se sustentando em meio à dor e à perda

Quando a versão final da história sobre a pandemia de 2020 for escrita, a América Latina será, infelizmente, numerada entre as regiões mais dramaticamente afetadas pela COVID-19.

O número de mortes por coronavírus na América Latina — um conjunto de nações e territórios no Hemisfério Ocidental que se estende do norte do México até a ponta sul da Argentina e todo o Caribe — passou recentemente de 200.000.

Enquanto isso, o vírus provavelmente enfraquecerá a vasta economia daquela populosa região, muito tempo depois que uma vacina for desenvolvida e distribuída com sucesso.

A COVID-19 provou ser uma doença indiscriminada, infectando latino-americanos de todas as origens socioeconômicas, políticas e religiosas. Pelo menos seis dos principais funcionários do governo brasileiro testaram positivo, assim como o próprio presidente do Brasil e o presidente interino da Bolívia. 

Os trabalhadores rurais preparam hortaliças para fazerem embalagens de doação de produtos agrícolas e outros itens de primeira necessidade a serem doados a famílias pobres no Assentamento Canaã, em Brasília, Brasil, no domingo, dia 2 de agosto de 2020. Conectando pessoas do interior e da cidade, o grupo “Mutirão do Bem Viver” distribui cestas agroecológicas, alimentos não perecíveis e produtos de higiene para pessoas necessitadas por causa da pandemia de COVID-19. (Foto AP/Eraldo Peres)
Os trabalhadores rurais preparam hortaliças para fazerem embalagens de doação de produtos agrícolas e outros itens de primeira necessidade a serem doados a famílias pobres no Assentamento Canaã, em Brasília, Brasil, no domingo, dia 2 de agosto de 2020. Conectando pessoas do interior e da cidade, o grupo “Mutirão do Bem Viver” distribui cestas agroecológicas, alimentos não perecíveis e produtos de higiene para pessoas necessitadas por causa da pandemia de COVID-19. (Foto AP/Eraldo Peres) Credit: AP

A marcha da pandemia pela América Latina também está se estendendo até as casas de legiões de santos dos últimos dias. Muitos membros morreram ou estão lutando contra a doença. Outros perderam empregos e negócios. Enquanto isso, o funcionamento diário das alas, missões e seus muitos templos da região continuam a operar com restrições de distanciamento social ditadas pela COVID-19.

Vários santos dos últimos dias na América Latina compartilharam sua experiência contínua com a pandemia com o Church News.

Vírus causa um enorme impacto para membros brasileiros

Lar de quase 1,5 milhão de membros e mais de 275 estacas, o Brasil é uma verdadeira potência da Igreja. É também um dos epicentros mais ativos da COVID-19.

Como diretor de assuntos públicos da Área Brasil, Nei Garcia sabe bem o preço que a doença está custando a seu país. “Os membros da Igreja no Brasil tiveram que se adaptar às circunstâncias impostas pela COVID-19, como isolamento físico, não poder participar de reuniões da Igreja e ter que trabalhar de casa”, relatou.

Voluntários santos dos últimos dias entregam suprimentos hospitalares para o Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte, no Brasil. A nação sul-americana continua a ser um epicentro do coronavírus.
Voluntários santos dos últimos dias entregam suprimentos hospitalares para o Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte, no Brasil. A nação sul-americana continua a ser um epicentro do coronavírus. Credit: Intellectual Reserve, Inc.

O vírus, acrescentou, ceifou a vida de mais de quarenta santos dos últimos dias no Brasil. “Felizmente, a taxa de mortalidade tem sido baixa em comparação com o número de casos [nacionais].”

Membros de todo o país continuam se reunindo em suas casas, confiando no “Vem e Segue-Me” e nas escrituras como as principais fontes de instrução semanal do evangelho.

O poder do Livro de Mórmon na pandemia: Como os santos estão ‘prosperando espiritualmente’ em meio a desafios

O Brasil está repleto de templos — e os santos dos últimos dias locais estão fazendo tudo que podem para manterem esses edifícios amados, ancorados no coração.

“Os membros estão tentando manter o templo como o ponto central da vida — no entanto, estão perdendo a oportunidade de servirem nele”, disse Garcia. “Temos relatos de alguns membros que moram em cidades com templos que passam de carro [por eles] apenas para se sentirem próximos e se lembrarem de suas experiências lá.  

As famílias também estão se engajando no trabalho de história da família para manterem o espírito do templo vivo em suas casas.” 

Segundo Garcia, cerca de 15.000 santos dos últimos dias na Área Brasil perderam o emprego por conta da COVID-19. A autossuficiência está sendo ensinada e demonstrada em muitas congregações.

Usando máscaras para conter a propagação do novo coronavírus, moradores da comunidade Sol Nascente, nos arredores de Brasília, Brasil, fazem fila para receberem doações de mercadorias e produtos básicos no domingo, dia 2 de agosto de 2020. Conectando pessoas do interior e da cidade, o grupo “Mutirão do Bem Viver” distribui cestas agroecológicas, alimentos não perecíveis e produtos de higiene para pessoas necessitadas por causa da pandemia de COVID-19. (Foto AP/Eraldo Peres)
Usando máscaras para conter a propagação do novo coronavírus, moradores da comunidade Sol Nascente, nos arredores de Brasília, Brasil, fazem fila para receberem doações de mercadorias e produtos básicos no domingo, dia 2 de agosto de 2020. Conectando pessoas do interior e da cidade, o grupo “Mutirão do Bem Viver” distribui cestas agroecológicas, alimentos não perecíveis e produtos de higiene para pessoas necessitadas por causa da pandemia de COVID-19. (Foto AP/Eraldo Peres) Credit: AP

As dificuldades do Brasil continuam, mas há esperança e cooperação entre os santos dos últimos dias.

“Durante este período de pandemia, a Presidência de Área estabeleceu uma meta e desafiou os santos no Brasil e seus amigos a produzirem 3 milhões de máscaras a serem doadas por todo o Brasil”, disse Garcia.

Essa meta, envolvendo 317 estacas e distritos por todo o país, foi alcançada há pouco tempo.

Manter o templo “no centro”

O bispo Joseph Sandoval, que preside a Ala Puerta Verde, Estaca Arequipa Central Peru, vê em primeira mão o peso econômico que a COVID-19 tem cobrado de sua congregação e comunidade.

“Há um impacto financeiro muito grande”, relatou ele em um e-mail para o Church News. “Muitos membros da minha ala vivem um dia de cada vez e ficaram sem trabalho, então não têm dinheiro para cobrir as necessidades. Muitos deles têm famílias e estão achando difícil superar esses desafios.”

O bispo Sandoval e seus companheiros de ala também estão de luto pela morte por COVID de um membro de sua ala e de outro de sua estaca.

Rosa Gonzales se apoia no batente da porta enquanto é testada para o novo coronavírus durante um test drive a domicílio, no bairro de San Juan de Miraflores em Lima, Peru, na terça-feira, dia 7 de julho de 2020. O Peru foi o primeiro país da América Latina a impor quarentena generalizada, que começou no dia 16 de março. (Foto AP/Martin Mejia)
Rosa Gonzales se apoia no batente da porta enquanto é testada para o novo coronavírus durante um test drive a domicílio, no bairro de San Juan de Miraflores em Lima, Peru, na terça-feira, dia 7 de julho de 2020. O Peru foi o primeiro país da América Latina a impor quarentena generalizada, que começou no dia 16 de março. (Foto AP/Martin Mejia) Credit: AP

Embora o Templo de Arequipa Peru, que fica próximo, tenha sido dedicado há menos de um ano, já é uma força na vida do bispo Sandoval e dos membros de sua ala.

“Eles estão mantendo o templo como o centro de suas vidas, tendo uma recomendação atualizada e se esforçando para serem dignos de entrar nele, mesmo que não seja possível devido à situação atual”, disse ele. “Somos muito abençoados por termos capelas e templos – e não podermos frequentar esses locais é triste, mas nos ajuda a apreciarmos e percebermos como esses lugares são importantes.”

Valorizar as coisas que não podem ser infectadas por um vírus

Como especialista em assuntos públicos da Igreja na Região Noroeste da América do Sul, Ana Lorena Ostos é frequentemente atualizada com informações sobre a dor que está sendo sentida em sua área, repleta de santos dos últimos dias, que inclui a Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.

Vidas e empregos foram reivindicados pelo vírus. Enquanto isso, os membros da área — conhecidos por sua simpatia e sociabilidade — são obrigados a adorar e a apoiar uns aos outros à distância.

“As restrições exigem que os membros permaneçam em casa e encontros religiosos não podem ser realizados pessoalmente”, relatou Ostos, que mora em Lima, Peru. “Muitas alas realizam devocionais e outros tipos de encontros pela internet, conforme nossos membros se reúnem em família, utilizam a tecnologia para estudarem o evangelho e se esforçam para manterem a companhia do Espírito Santo.”

Ainda assim, acrescentou, a esperança de dias melhores sustenta muitos.

Um funcionário de segurança pública na Bolívia descarrega equipamentos de proteção doados pela Igreja e desenhados para evitar a propagação da COVID-19.
Um funcionário de segurança pública na Bolívia descarrega equipamentos de proteção doados pela Igreja e desenhados para evitar a propagação da COVID-19. Credit: Intellectual Reserve, Inc.

“Nosso coração se encherá de alegria quando pudermos, mais uma vez, nos encontrar com segurança na Igreja e frequentar o templo”, disse ela. “Passar por essa experiência nos fez valorizar, como nunca, algo que às vezes não damos o devido valor — poder frequentar a Igreja com nossa família, ouvir as mensagens, ver e abraçar nossos irmãos e irmãs e realizar ordenanças sagradas por nossos antepassados e outras pessoas.”

Apegar-se às escrituras

O coronavírus atingiu a cidade de San Pedro Sula, no norte de Honduras, nas últimas semanas, impactando a vida de muitos santos dos últimos dias locais.

“As restrições do governo têm sido duras para nós”, relatou o bispo Johel Rivera, da Ala La Aldea, Estaca El Carmen Honduras. “Os empregos foram suspensos e as restrições de viagem nos impedem de realizar muitas tarefas e atividades regulares.”  

Ainda assim, o bispo Rivera é grato pelos membros de sua ala terem permanecido, em sua maioria, saudáveis — embora vários tenham testado positivo para o vírus e uma pessoa tenha morrido.

O agente de segurança pública boliviano Jorge Luis, à esquerda, e o Élder Juan Carlos Pozo Uria, Setenta de Área, se cumprimentam. A Igreja recentemente doou um grande suprimento de equipamentos de proteção para serem usados por trabalhadores da segurança pública na Bolívia durante a atual pandemia.
O agente de segurança pública boliviano Jorge Luis, à esquerda, e o Élder Juan Carlos Pozo Uria, Setenta de Área, se cumprimentam. A Igreja recentemente doou um grande suprimento de equipamentos de proteção para serem usados por trabalhadores da segurança pública na Bolívia durante a atual pandemia. Credit: Intellectual Reserve, Inc.

Ainda não é possível, para os membros da Ala La Aldea, realizarem a reunião de adoração semanal aos domingos, “então, para manter o espírito em nossa casa, nos apegamos aos ensinamentos das escrituras — juntamente com o estudo diário do ‘Vem, e Segue-Me’ e das mensagens da conferência geral compartilhadas por nossos líderes da Igreja.”

O bispo Rivera e seus muitos amigos da ala oram todos os dias para que logo estejam adorando juntos sob o mesmo teto.

“O Pai Celestial protegeu nossa ala. … E estamos ansiosos para retornarmos ao templo e mais uma vez servirmos e fazermos convênios sagrados.”

‘Uma âncora me mantém segura’

“Estamos vivendo em um mar de mudanças, mas o evangelho tem sido uma âncora que me mantém segura e protegida”, disse Arami Cabrera, irmã da Sociedade de Socorro de Lambaré, Paraguai, ao Church News.

Todos os domingos, o coração de Cabrera dói um pouco sabendo que ela não se reunirá em sua capela local para adorar com seus amigos e companheiros santos dos últimos dias. E não há nenhum portador do sacerdócio em sua casa que possa abençoar o sacramento para ela toda semana.

Nesse meio tempo, ela perdeu o emprego quando a pandemia se espalhou pelo seu país.

“Mas encontro refúgio no estudo do ‘Vem, e Segue-Me’ e nas mensagens de nossos líderes dos últimos dias”, disse ela. “Estou convencida de que nosso profeta, o Presidente Russell M. Nelson, é o servo do Senhor que foi orientado por Ele a fazer mudanças em nosso estudo do evangelho para que Seus ensinamentos nos estejam sempre disponíveis.”

Ansiosos por futuros abraços

O presidente do quórum de élderes da Ala Niza, Estaca Bogotá Colômbia, Saul Vargas, ora diariamente pelo bem-estar dos membros de seu quórum e de suas famílias. 

Vargas é grato por não ter ninguém sob sua responsabilidade que tenha se sucumbido à COVID-19. O quórum tem permanecido, em sua maioria, saudável e ele e os outros membros mantêm contato frequente por meio de reuniões do Zoom e outros encontros virtuais. Ele está especialmente satisfeito que as crianças da Primária em sua ala estão permanecendo conectadas.

Ainda assim, as restrições locais resultaram em muitas perdas de empregos em toda a Ala Niza. “Levará mais de um ano para que a economia se recupere aos níveis que estavam antes da pandemia”, disse Vargas ao Church News.

Sinal de alerta de nível laranja sobre o novo coronavírus, pendurado em um terminal de ônibus público na área de Kennedy em Bogotá, Colômbia, na terça-feira, dia 30 de junho de 2020. O prefeito de Bogotá fechou três terminais de ônibus no bairro Kennedy devido ao aumento no número de casos da COVID-19. (Foto AP/Fernando Vergara)
Sinal de alerta de nível laranja sobre o novo coronavírus, pendurado em um terminal de ônibus público na área de Kennedy em Bogotá, Colômbia, na terça-feira, dia 30 de junho de 2020. O prefeito de Bogotá fechou três terminais de ônibus no bairro Kennedy devido ao aumento no número de casos da COVID-19. (Foto AP/Fernando Vergara) Credit: AP

Ele acrescentou que está animado com a certeza de que um dia — tomara que em breve — ele distribuirá novamente abraços a seus amigos do quórum de élderes e servirá com eles dentro do amado Templo de Bogotá Colômbia.

“Espero que este momento esteja nos ajudando a refletir sobre as coisas que devemos entender e aprender a diferenciar, o que é realmente importante e necessário em nossa vida”, disse ele. “Espero que estejamos nos tornando melhores seguidores de Cristo e talvez menos interessados nas mídias sociais e nas coisas do mundo.

Espero que esta experiência nos ajude a entender, ouvir e lembrar o que é realmente necessário para nossa salvação e o que o Senhor espera de nós.”

Preparação para o templo continua em meio à COVID-19

Ruth Rodriguez, do Ramo Nacozari Sonora, em Sonora, México, disse que a atual pandemia lhe deu uma visão “de camarote” do ministério do evangelho em ação. Ela presenciou testemunhos chamados para a ação. 

“Já vi muitas pessoas se ajudando e dando o pouco que têm a seus irmãos e irmãs.” 

Apesar das restrições relacionadas ao vírus, Rodriguez tem tempo para ajudar seu filho de 12 anos, Omner, a se preparar para frequentar o Templo de Hermosillo Sonora México quando reabrir para ordenanças vicárias. 

“Ele fará batismos pelos mortos pela primeira vez”, disse ela. “Ficarei feliz em abraçar novamente meus irmãos e irmãs enquanto realizamos juntos o trabalho.”

Comerciantes de flores, usando máscaras para conter a propagação do novo coronavírus, transportando arranjos de flores em um carrinho de mão dentro do mercado jamaicano da Cidade do México, na quinta-feira, dia 30 de julho de 2020. A atividade econômica do México despencou 18,9% no segundo trimestre em comparação com o mesmo período do ano passado, quando a paralisação econômica causada pela pandemia de COVID-19 levou o país a uma recessão. (Foto AP/Marco Ugarte)
Comerciantes de flores, usando máscaras para conter a propagação do novo coronavírus, transportando arranjos de flores em um carrinho de mão dentro do mercado jamaicano da Cidade do México, na quinta-feira, dia 30 de julho de 2020. A atividade econômica do México despencou 18,9% no segundo trimestre em comparação com o mesmo período do ano passado, quando a paralisação econômica causada pela pandemia de COVID-19 levou o país a uma recessão. (Foto AP/Marco Ugarte) Credit: AP

A paz do evangelho em momentos de dor

Benjamin Ignacio Diaz, de Santiago, Chile, lamenta a perda de alguns dos membros mais velhos da Ala Grecia, a qual pertence, durante a atual pandemia. A alegria de um dia se reunir fisicamente novamente com a ala será silenciada um pouco devido à ausência dessas pessoas. 

“Mesmo assim”, disse ele ao Church News, “será fantástico estarmos reunidos novamente.”

Diaz e sua família ouvem música do Coro do Tabernáculo da Praça do Templo para enriquecer sua adoração aos domingos. E suas conversas no Dia do Senhor não são sobre o vírus e as perdas de emprego. Em vez disso, falam de Cristo e Seu evangelho. 

“Isso nos dá paz.”

Veronica Arriagada Arancibia, também de Santiago, disse que a doença tem sido especialmente difícil para os membros mais velhos da Ala Ñuñoa 2, a qual pertence. Eles estão aliviando seu fardo por meio da ministração diária.

“Eles tomaram para si a responsabilidade de ajudarem em tudo que puderem”, disse ela.