Como xícara, violino e baú de pioneiros ajudam a dar significado à viagem para Sião

Depois que os primeiros membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias foram batizados, muitos deles emigraram de países de origem para se reunirem com outros membros no Vale do Lago Salgado.  

“Os santos dos últimos dias do século XIX foram convidados a se reunirem em um local geral como meio de proteção e para que pudessem viver e trabalhar juntos em uma sociedade justa e pacífica”, disse Tiffany Bowles, curadora associada de educação no Museu de História da Igreja [site em inglês], durante a transmissão do evento Noite no Museu, intitulado “Por trilhas, barco e trem: Viagens pioneiras para Sião” na quinta-feira, dia 22 de julho. Sua apresentação foi transmitida da exposição Trilhas Mórmons: Caminhos pioneiros para Sião [site em inglês].

Os santos usaram vários meios de transporte para chegarem até Sião. Muito deles caminharam ou usaram um carroção puxado por parelhas de bois, alguns navegaram por rios e mares, e outros, mais tarde, viajaram de trem. Por volta de 1890, os membros da Igreja foram encorajados a permanecerem e construírem a Igreja em seus países de origem.  

Ela compartilhou três histórias de pioneiros que viajaram por trilhas, rios e ferrovias, juntamente com um item, na exposição que está conectada a cada um deles.  

“Podemos ser inspirados pela resiliência de Green Flake diante da adversidade, pela perseverança de Jean Rio Baker, apesar de inúmeros contratempos, e pela coragem de Niels e Margarita Nielsen de deixar sua terra natal e seguir rumo a um país estrangeiro”, disse Bowles. “Aqueles que nos precederam podem motivar cada um de nós a prosseguir, conforme embarcamos em nossas próprias jornadas de fé nesta vida.” 

Trilhas

Esta xícara pertencia a Green Flake e faz parte da exposição Trilhas Mórmons: Caminhos pioneiros para Sião, no Museu de História da Igreja.
Esta xícara pertencia a Green Flake e faz parte da exposição Trilhas Mórmons: Caminhos pioneiros para Sião, no Museu de História da Igreja. Credit: Captura de tela do YouTube

Green Flake foi um dos três homens escravizados que estava na companhia de vanguarda que Brigham Young liderou por mais de 2 mil km, até o Vale do Lago Salgado em 1847. Nas décadas seguintes, entre 60 mil e 70 mil pessoas passariam por esta trilha.

“Green dirigiu o primeiro carroção pelo Emigration Canyon no dia 22 de julho de 1847”, disse Bowles. “E quando Brigham Young chegou ao Vale do Lago Salgado, no dia 24 de julho, Green já havia começado a arar o solo para o plantio.” 

Green Flake construiu uma casa e lavrou terras para seu dono, James Flake, que chegou com sua família em 1848.   

Mais tarde, Green Flake se casou e teve filhos. James Flake faleceu em 1850, e sua viúva se mudou para a Califórnia em 1854. Ela pediu que Brigham Young vendesse Green e lhe enviasse o dinheiro, mas nenhuma venda foi feita, disse Bowles. Green e sua família foram listados como habitantes livres no censo territorial de 1860. 

Uma pequena xícara de porcelana que pertencia a Green Flake está na exposição Trilhas Mórmons. Ela tem uma pintura de flores com as palavras “Muitos retornos”. Não se sabe onde ele conseguiu a xícara, mas uma bisneta disse que ela esteve na casa de Green por muitos anos, disse Bowles.

A xícara também sobreviveu a um incêndio na casa. “Embora tenha as marcas do fogo, ela não sofreu outros danos”, disse ela. 

Bowles disse que é uma metáfora da vida de Flake.  

“Green Flake teve de suportar a dificuldade adicional de viver como uma pessoa escravizada e, mesmo depois de obter sua liberdade, ter muitas oportunidades negadas, até mesmo dentro da Igreja por causa da cor de sua pele”, disse ela. “No entanto, ele viveu uma vida de fé, apesar das dificuldades que enfrentou.” 

Barco  

Quando Jean Rio Baker emigrou da Inglaterra em 1851 como uma viúva com sete filhos, este violino foi um dos instrumentos musicais trazidos pela família. Ele faz parte da exposição Trilhas Mórmons: Caminhos pioneiros para Sião, no Museu de História da Igreja.
Quando Jean Rio Baker emigrou da Inglaterra em 1851 como uma viúva com sete filhos, este violino foi um dos instrumentos musicais trazidos pela família. Ele faz parte da exposição Trilhas Mórmons: Caminhos pioneiros para Sião, no Museu de História da Igreja. Credit: Captura de tela do YouTube

Jean Rio Baker, uma viúva de 40 anos de idade com sete filhos, partiu de Londres para Liverpool, Inglaterra, no dia 4 de janeiro de 1851. Em Liverpool, eles embarcaram no navio George W. Bourne, com destino aos Estados Unidos. A viagem para Nova Orleans, Louisiana, levou quase dois meses e seu filho de 4 anos, Josiah, morreu durante a viagem.  

“Jean foi uma dos aproximadamente 90 mil conversos santos dos últimos dias que atravessou o oceano no século XIX”, disse Bowles.  

Eles embarcaram em um barco a vapor para St. Louis, onde ficaram enquanto faziam as preparações para a viagem rumo ao oeste, que incluiu a compra de quatro carroções e oito juntas de bois. Ela e membros de outras famílias santos dos últimos dias transportaram seus pertences em um barco a vapor para Alexandria, Missouri. De lá, eles prosseguiram para Kanesville, Iowa, onde se juntaram à Companhia de John Brown, formada por 50 carroções e 235 pessoas. A companhia recebeu assistência do Fundo Perpétuo de Imigração, que ajudou mais de 30 mil pessoas a viajarem para Utah, disse ela.  

Sua viagem para o oeste incluiu desafios, tais como o calor, carroções quebrados, riachos transbordandos, acidentes, ferimentos e a morte de alguns dos membros da companhia. Um de seus bois caiu em um riacho e se afogou. Baker se tornou avó quando sua filha Eliza deu à luz um filho.     

A família chegou a Salt Lake City no dia 29 de setembro de 1851.  

“Jean escreveu em seu diário: ‘Eu mal consigo analisar meus sentimentos, mas acho que os que prevaleceram foram a alegria e a gratidão pela proteção que minha família recebeu durante nossa longa e perigosa jornada’”, disse ela.  

Eles viajaram por quase nove meses, cobrindo mais de 12 mil km. Eles percorreram 5.400 milhas náuticas por navio, 1.000 milhas por barco a vapor e 2.092 km por carroções cobertos.  

Um dos quatro carroções de Jean supostamente continha instrumentos musicais, incluindo um violino que está em exibição na exposição Trilhas Mórmons. 

“O violino de Jean, que sobreviveu a toda a viagem, nos lembra que os conversos santos dos últimos dias de diferentes países trouxeram consigo elementos de sua antiga vida e cultura, contribuindo para a formação de uma sociedade diversificada e eclética em Utah”, disse Bowles. 

Trem  

Este baú, que pertencia a Margarethe Nielsen, emigrante da Dinamarca, faz parte da exposição Trilhas Mórmons: Caminhos pioneiros para Sião, no Museu de História da Igreja.
Este baú, que pertencia a Margarethe Nielsen, emigrante da Dinamarca, faz parte da exposição Trilhas Mórmons: Caminhos pioneiros para Sião, no Museu de História da Igreja. Credit: Captura de tela do YouTube

“Quando a ferrovia transcontinental foi concluída em 1869, viajar para Utah tornou-se muito mais fácil, barato e rápido para os conversos santos dos últimos dias”, disse Bowles. Ela abriu novas possibilidades para as pessoas que viajavam para Utah.

Uma dessas pessoas foi Niels Peter Nielsen, que foi batizado em 1869 na Dinamarca. Ele havia sido expulso de sua cidade e rejeitado por familiares e amigos, disse ela. Ele foi chamado para servir uma missão na Ilha de Bornholm, no Mar Báltico.  

“Durante seu serviço missionário, ele foi atacado e quase morto por uma turba de 75 homens”, disse ela.  

Foi durante esta época que ele conheceu Margarethe Petersen, que também teve de deixar seu lar quando se filiou à Igreja. Após quase seis anos de serviço missionário, Nielsen recebeu um bilhete para navegar para os Estados Unidos e começar sua jornada para Utah.  

“Em 21 de junho de 1876, um dia antes de sua partida, ele e Margarethe se casaram para que pudessem fazer a viagem juntos”, disse Bowles.  

Eles pegaram um barco a vapor de Copenhague, Dinamarca, para a Inglaterra, e um trem para Liverpool. Então, no dia 28 de junho de 1876, eles embarcaram no navio Idaho, com destino à cidade de Nova York. A viagem através do Oceano Atlântico levou 14 dias. O casal Nielsen, juntamente com outros conversos, embarcaram em um trem em Jersey City, e finalmente chegaram a Ogden, Utah, no dia 18 de julho de 1876. 

“Graças às inovações de transporte, toda a jornada de Niels e Margarethe de Copenhague a Salt Lake levou menos de um mês, algo inimaginável nas décadas anteriores”, disse Bowles.  

Eles se mudaram para Logan e alugaram uma casa. Em 1877, eles compraram um terreno e construíram uma casa no seguinte endereço: 480 East 2nd South, em Logan. Um baú foi enviado para M.P. Nielsen neste endereço, possivelmente para Margarethe Petersen Nielsen.  

“Embora a relação de Margarethe com Karen Nielsen, remetente do baú, seja desconhecida, é possível que ele tenha sido enviado da Dinamarca para Utah”, disse Bowles. Niels havia retornado à Dinamarca em uma missão e descobriu que sua mãe e irmã tinham se filiado à Igreja.  

“Seu baú nos lembra de sua disposição de deixarem para trás sua terra natal e tudo que lhes era familiar, para se reunirem com outros membros de sua religião”, disse Bowles.  

A apresentação está disponível na página do Museu de História da Igreja no Facebook [site em inglês] e no canal História Santo dos Últimos Dias no YouTube [site em inglês].

O Museu de História da Igreja está atualmente fechado, com reabertura agendada para o dia 2 de agosto.